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05/09/2018 17:12


A Estação e a Rede Ferroviária em Bossoroca

Na Estação Ferroviária de Bossoroca havia um telefone pelo qual, ao longo dos anos, foram prestados inestimáveis serviços de ação social, transmissão de recados, comunicados de nascimento, casamento  e falecimento, assuntos de toda ordem naquele tempo em que não havia as facilidades tecnológicas da comunicação contemporânea. 
A ferrovia chegou ao interior do Rio Grande do Sul em 1885, foi riscando esta terra gaúcha aos mais recônditos rincões, levando e trazendo pessoas, cargas de animais e cargas de mercadorias, sonhos e prosperidade.   A partir de 1905, as ferrovias foram unificadas com o nome de VFRGS – Viação Férrea do Rio Grande do Sul. Nessa época algumas linhas faziam parte da Cia. Auxiliaire e outras ao Governo. Em 1920, a VFRGS passou a ser uma empresa estatal e em 1957, foi encampada pela RFFSA – Rede Ferroviária Federal, sendo que em 1969, a transformou em uma de suas Divisões. 
A Estação Bossoroca que, por muitos anos, foi um destacado ponto de encontro, um lugar de aglomero humano e o centro das atenções, lugar de incontáveis alegrias quando da chegada de parentes e também lugar de tantas lágrimas derramadas quando da partida de pessoas, consta de um pavimento de alvenaria medindo 132 m2, de quatro águas, coberto com telhas francesas, esquadrias de madeira, e um beiral na frente, construída pelo 1º Batalhão Ferroviário, inaugurada em 1º de junho de 1943. 
Teve como primeiro agente Tancredo Gomes da Trindade, de 1º de junho deste ano até 13 de abril de 1944.
O primeiro telefone desta localidade foi o telefone da Rede Ferroviária que passou a funcionar a partir do dia 1º de junho de 1943.
A Estação Bossoroca faz parte do ramal que partindo de Dilhermando de Aguiar fazia a ligação com São Borja e Cerro Largo. A construção desse ramal foi autorizada pelo Governo Federal em 1911, sendo autorizado o contrato com os empreiteiros João Corrêa e Irmão e o Banco da província do Rio Grande do Sul. O primeiro trecho deste ramal até Jaguari, foi inaugurado em 1919. O restante das obras ficou paralisado até a década de 1930. Em 1935 inaugurou-se o trecho Jaguari até Curuçu. Em 1936 o trecho Curuçu até Santiago. Em 1943 o trecho entre Santiago e São Luiz Gonzaga, no qual inclui-se as estações de Carovi, Tupantuba, Charruas, Bossoroca, Rio Piratini, Ximbocu e São Luiz Gonzaga. Na época da inauguração Bossoroca era 3º Distrito de São Luiz Gonzaga. Lembrando, por oportuno, que mais tarde em 12-10-1965, foi criado o município de Bossoroca e em 04-03-1967, foi instalado o município de Bossoroca – RS.
Em 13-01-1948, através do Decreto Federal 24332, foi aprovado o projeto e orçamento para a construção do triângulo de reversão na Estação de Bossoroca. 
O fiasco: uma vez um amigo meu todo “bosserão” (sujeito cheio de bossa) estava paquerando uma moça que encontrava-se dentro de um dos  vagões de passageiros, na sua passagem por Bossoroca. Houve uma breve troca de olhares e o meu amigo estava ao lado dos trilhos em cima de um monte de areia quando numa tentativa de aproximação esboçou um descontraído sorriso para a moça e eis que neste instante caiu a sua chapa de dentes sobre a areia. Então ele ficou todo envergonhado, com o rosto vermelho, juntou a chapa e rapidamente foi-se embora. 
Parte da riquíssima história de Bosoroca, anos a fio, esteve ligada à Rede Ferroviária, mas eis que o trem da história, o trem passageiro e o trem cargueiro, que deslizava no leito da ferrovia, que trouxe progresso, que transportava corações e sentimentos fez sua ultima viagem só de ida, houve um vazio, sumiu-se na distância e isto afugentou as pessoas das estações ficando nelas silêncio e solidão junto aos prédios, muitos já deteriorados, abandonados pelo desuso contínuo e pela ação do tempo.
Eu tive a felicidade de, na minha infância, presenciar “in loco” a movimentação dos trens de carga e trens passageiros, ver o formigueiro humano na estação férrea e, inclusive, trazer na lembrança até o cheio da fumaça dos trens maria-fumaça e creio que não terei a felicidade, tão breve, de sentir o gosto de ver meu filho testemunhar estes fatos históricos em que eu vivi haja vista o descaso brasileiro para com as ferrovias. 
Site: Escritor João Antunes é poeta e compositor, de Bossoroca. 
João Antunes (55) 9999-42970 joaoantunes@barracamissoes.com.br 

PAJADA DO TREM E DA ESTAÇÃO
Letra: João Antunes e Afrânio Marchi.
1 – Áh, como bom recordar / Imagens, tão claramente, 
Que revivo na minha mente / Pelos portais da memória
Dos acervos da história / Do meu tempo de menino,
Tempo bom e tão divino / Na emoção do que eu vivi,
 Pois eu me orgulho de ti / Meu recanto pequenino.
2 - Então, na minha lembrança, / Eu sinto um prazer gostoso
Que me vem, contagioso, / De um modo tão envolvente,
Momentos, tão docemente, / Do meu mundo imaginário,
Daquele augusto cenário, / De tantos anos passados
Que trago aqui, bem guardado, / Na forma de um relicário.
3 - Coisas lindas pra lembrar, / Meu pensamento povoado,
Que agora, inebriado, / Trago assim pra o consenso:
Contar àquilo que penso / Na luz da recordação:
Trilho, dormente e vagão, / Os cortes e os aterros,
Gente e máquina de ferro / Chegando na Estação.
4 - Estação que foi o centro / E aqui o meu verso evoca
A vilinha Bossoroca /  E que aponto, sem alarde, 
Onde aos sábados à tarde / Muita gente se encontrava
E, ansiosa, esperava / Pela chegada do trem,
Que me lembro e me faz bem / O que, pra nós, representava.
5 - Ao longe se escutava, / Disto eu me lembro bem,
O barulhinho do trem / Deslizando sobre os trilhos,
As mães avisando os filhos: / Sai daí por um momento!
Cuidado, seu desatento! / O trem está para chegar
E ele pode te pegar / Se estiver em movimento!
6 - Mulheres se enfeitavam: / No cabelo um laquê
E um Casmere Bauquet / Tinha alguém que sempre usada
Num olor que contagiava / Aromando o ambiente
E o povo, alegremente, / Se aglomerava, faceiro,
Pra o encontro prazenteiro / À espera de outras gentes.
7 - De repente se escutava, / Ao longe, o som do apito
E se ficava aflito / Que o trem, na curva, apontasse
E que, de pronto, chegasse / Trazendo as novidades
E se matasse a saudade / De alguém que andasse distante
Por que isto é interessante / Pra quem ama de verdade.
8 - E a Estação se agitava / Pelo volume de gente
Que ali estava presente: / Uns por curiosidade,
Outros por necessidade / De alguma negociação
Ou pela embarcação / Até mesmo de alimento
Que vinha, de bom alento, / Pra Bossoroca e região.
9 - Era o sal pra o seu Acácio, / Querosene pra o Vitel,
Umas bolachas de mel / Pra o Bolicho do seu Chico,    
Encomendas do seu Rico, / Coisas pra o seu Leoveral
E até pra o Café Central, / Às vezes, vinha encomenda
E tantas outras vivendas / Que precisasse, afinal. 
10 - E quem quisesse maçã / Oriunda lá da Argentina
Com aroma que fascina / Conseguia, muito embora,
No instante, nessa hora, / Pelo trem que advinha,
Pois aqui isso não tinha / Vou lhes contar minha gente:
O comércio era incipiente, / Com bem pouco se mantinha. 
11 - Lembrando aquele comboio: / Tinha o carro de primeira
Tudo bom, sobremaneira, / Na hora, café torrado
E doce caramelado, / Bom pastel e guaraná
E quem quisesse sentar / Tinha banco reversível
E sempre o melhor possível / Pra o passageiro gostar.
12 – Tinha o carro de segunda / Com seus bancos de madeira
E nem tudo de primeira / Nestas acomodações,
Mas tinha compensações / E algumas de bom alento:
Um cego de nascimento / Tocava belas canções
Com um chapéu pras doações, / Pra donativos sustentos.
13 – E o carro dos Correios / Eu lhe digo na essência:
Cheio de correspondências, / Ou seja, cartas, cartões,
E outras comunicações / Que nesse tempo vigente
Informava nossa gente / E a Revista Cruzeiro
Com seu informe certeiro / Pra se ler atentamente.
14 –  E quantas moças bonitas / Charmosas pra mais de cem
Desfilavam pelo trem / Pra frenesi e alegria
Vindas de Santa Maria / E, assim, de outros lugares,
De aura linda e bons ares / Que pareciam artistas
Sendo elas normalistas / Desses bancos escolares. 
15 – Um outro tipo de trem / Além do trem passageiro
Era, então, o trem cargueiro / Com o seu brete andante
Naquele tempo marcante / Bem aqui por estes lados
Levando tropas de gado / Pra o abate em Livramento,
Teve o reconhecimento / Pelo progresso gerado.
16 – Passou-se os anos, que pena, / Na roda-viva da vida
Que roda sem dar guarida / Num constante vai-e-vem
Igual a roda do trem / Desse trem de passageiro
E também do trem cargueiro / Que, de novo, aqui ressalto
Permutados pelo asfalto, / Que aqui fez seu hospedeiro.
17 – Só persistem estes versos / Na lembrança emocional
Como se fosse um sinal / De abraços na chegada
E acenos na saída / Onde compreendo, então,
Que a gente, neste mundão, / A gente que vai-e-vem
Nós parecemos ao trem / À procura da estação.

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