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23/10/2018 08:30


História Missioneira João Antunes

Muita gente sabe que sou apaixonado pela cultura e história missioneira. Então, enquanto cursávamos o sétimo semestre de Administração no IESA, como líder da turma que fui durante seis semestres, eu pedi ao nosso professor de filosofia, senhor Odécio Ten Caten, que nos apresentasse uma aula “diferente”, ou seja, sobre História Missioneira, pois ele é um estudioso nesta área. Assim, no dia 15-06-2007, para minha surpresa, este nosso professor começou a aula com uma estrofe de uma das minhas poesias em parceria com João Ribeiro, que relata assim:  Eu sou gaúcho sulino / campeiro de identidade / e amante da liberdade / desde o dia em que nasci / sou do Pampa, sou daqui / sou Missioneiro, hermano / do chão do Jayme Caetano / e do Noel Guarany.
O senhor Odécio que é um homem inteligente e pessoa de vasta amizade em São Luiz Gonzaga e na região disse que aqui nas Missões há uma espécie de identidade. 
O assunto foi-nos contagiando e eu, como de costume, fiz um resumo. Desses instantes de sabedoria, das palavras ditas em sala de aula pelo professor Odécio captei e rabisquei, ao meu modo, o seguinte:
Intros: vivemos na região americana, brasileira e rio-grandense-do-sul, denominadas Missões.  Do tronco Tupi surgiram os guaranis.
Por que Missioneiro?  Origem do termo Missioneiro: missión, reduccion, pueblo (povoado), aldeamento, doctrina. 
A Espanha até 1459 era dividida em 2 províncias: Aragão e Castela. Isabel de Castela patrocinou Colombo em suas expedições marítimas (quando descobriu Santo Domingo) e impôs os seus usos e costumes em toda a América Hispânica (Ilha Espanhola). Os Códigos de Direito de Castela foram aplicados aqui.  Obs: Cuba até hoje aplica os Códigos de Direito de Castela. 
Pelo Tratado de Tordesilhas o mundo foi dividido entre português e espanhol. Nós, aqui, pertencíamos ao domínio espanhol.  Naquela época para o Europeu quem não morava na cidade era Silvícola (do mato). Até 1534, os silvícolas eram considerados sem alma. O termo índio foi designado aos silvícolas (nativos) pela turma da nau de Pedro Álvares Cabral, que ao chegarem aqui em 22-04-1500, onde hoje é o Brasil, pensaram que, naquela expedição, estivessem chegando à Índia.
O linguajar espanhol é originário de Castela. 
Em 1534, foi fundada a Ordem dos Jesuítas. Em 1540, foi oficializada pelo Papa.
Naquela época a igreja perdeu a Alemanha, França e Inglaterra. Então foi criado o projeto para conquistar o povo daqui como forma de compensar a perda do povo de lá. 
Reduções quer dizer: Re – Ducere, que significa trazer de volta. Os jesuítas pertenciam a Companhia de Jesus e estavam a serviço da Coroa. 
A primeira Redução situou-se o Paraguai. Foi a de San Ignácio. Fundada em 1610. Hoje o maior patrimônio é Trinidad, no Paraguai. Depois, provavelmente, pelo Passo de Santo Izidro, próximo a São Nicolau os jesuítas vieram para cá. 
Entre 1616 e 1706 (7), foram fundadas 54 Reduções entre os índios guaranis nos territórios atuais do Paraguai, Argentina e Brasil, sendo que 8 reduções estavam no Paraguai, 15 na Argentina e 7 no Brasil.
1º ciclo de geração das reduções: 1626 a 1641. Estas reduções foram destruídas. São Nicolau foi fundado em 1626 até 1641. Foram fundados também: Caaró em 1628. Assunção do Ijuí, Candelária.
2º ciclo de geração das reduções:  São Borja: 1682. São Nicolau: 1687. São Luiz Gonzaga: 1687. São Miguel Arcanjo: 1687. (1721 a 1731: construção da catedral onde trabalharam cerca de 1000 homens). São Lourenço Mártir: 1690. São João Batista: 1697. Santo Ângelo Custódio: 1706/1707. As reduções eram construídas com a frente para o norte. Apenas a Redução de Santo Ângelo Custódio está direcionada para o sul.
Portanto, o Rio Grande do Sul nasceu aqui nas Missões haja vista que mais tarde é que foram fundados: Rio Grande, Porto Alegre, etc.
Sobre a Cruz de Lorena: era um símbolo de nobreza. Provavelmente surgiu no Oriente. No final do século XV esta cruz tornou-se elemento integrante do escudo dos duques de Lorena (hoje província da França). A cruz de Lorena foi trazida para os Sete Povos pelos missionários flamengos.
A cruz de Lorena, hoje Cruz Missioneira é um símbolo não dos Trinta Povos, mas dos Sete Povos Missioneiros.
A planta de uma Redução Jesuítica: o projeto básico dos Sete Povos foi traçado na Espanha pela Companhia de Jesus com a ajuda de engenheiros da Coroa. Cada cidade tinha capacidade para cerca de 7.000 habitantes.
No complexo, o panorama constava do seguinte: Igreja, Praça (centro da vida social), Hospedaria, Oficinas, Cozinha e Refeitório, Adega, Prisão, Cabildo (sede administrativa onde tinha, por exemplo, o Corregedor ‘prefeito’ tenente corregedor ‘vice-prefeito’), Colégio, Quinta (área de cultivo), Armazéns, Currais de Pedra, Casas, Cemitério, Cotiguaçu (abrigo de viúvas e órfãos).
Os índios aprenderam a língua do branco. A lei obrigou o espanhol de Castela para os índios. (isto foi uma violência histórico-cultural).
Nas reduções funcionava a chamada “Economia de Reciprocidade” onde era produzido para a sobrevivência e o que sobrava era dado às outras reduções. Isto não era uma forma de comunismo e nem de socialismo, pois estas duas formas surgiram mais tarde.
Alguns porquês da guerra: até 1750, esta região pertencia ao domínio espanhol. Em 13-01-1750, foi criado o Tratado de Madri. Até esta data este território era da Espanha. Havia um jogo de poder entre Portugal e Espanha.  Finalidade: estabelecer, aproximadamente, os limites atuais entre o Brasil e as Repúblicas Hispano-Americanas.  1ª conseqüência prática: entregar a Portugal o território dos Sete Povos em troca da Colônia do Sacramento. Foi um absurdo a proposta desta troca. E foi dado um ano para que os índios deixassem a sua querência e rumassem para a terra alheia. Naturalmente que os índios não aceitaram, pois, para eles, eram inconcebível que a Coroa espanhola quisesse entregar as Missões aos inimigos. Na verdade a proposta da troca deu-se porque a Espanha sentiu-se ameaçada pelo sucesso da Colônia do Sacramento e pelo que ela representava na mão dos portugueses em termos estratégicos, geográficos e mercantis. Então houve a Guerra Guaranítica (1752/1756), que envolveu os aliados de Sepé Tiaraju contra os exércitos de Portugal e Espanha. Em 07-02-1756, morreu Sepé Tiaraju no local denominado Caiboaté. Naquele fatídico 17-05-1756, a Redução de São Miguel Arcanjo foi tomada. Alguns índios se refugiaram no Paraguai. Os que ficaram defenderam a todo o custo esta terra. A intenção dos índios era cruzar a fronteira, mas os índios atacavam em massa e, assim, eram um alvo fácil. A experiência foi interrompida de maneira cruel. Foi um verdadeiro massacre aos índios militarmente inferiores aos dois exércitos que tinham armas de fogo e um alto poderio bélico.
A frase:Co Yvy Oguereco Yara! que quer dizer: Esta Terra Tem Dono! foi atribuída a Sepé Tiaraju é, na verdade, um brado do povo guarani e nos serve de estímulo para dizermos e sustentarmos o nosso sentimento grande de pátria e querência e que não aceitamos que as intromissões estrangeiras nos ditem as regras. Com certeza somos contra a Xenofobia (que é o horror ao estrangeiro), mas não aceitamos que certas intromissões estrangeiras afetem naquilo que é nosso! Foi através da herança dos índios e dos jesuítas que foi forjado o espírito guerreiro do gaúcho, gaúcho este que, mais tarde, durante 10 anos enfrentou o Império na Guerra dos Farrapos.
O gado que os jesuítas criaram com os guaranis ficou após o massacre ao povo indígena.  Após surgiu a figura dos tropeiros. Borges do Canto, por exemplo, foi uma das pessoas juntamente com o seu grupo que empurrou as nossas fronteiras para chegarmos até onde hoje é o limite divisório do Rio Grande do Sul com o nosso país visinho o Uruguai.
As ruínas: hoje elas não são somente amontoados de pedras. Elas nos legaram uma herança daquilo que foi um “sonho” ao sul do mundo.  As ruínas são marcos que contam uma história de um local que foi: ideal de arte, cultura e civilidade. Onde se aglutinaram a força dos guaranis à fé dos jesuítas.  Aqui se mesclou a cultura dos guaranis à cultura dos europeus.  Índios se tornaram cristãos de fato.  A siderurgia gaúcha surgiu na Redução de São João Batista.  A arte missioneira revelou os primeiros traços do gaúcho. Houve também o incentivo à escultura, à música e à arte da catequese.
Foram dias de fé e de civilidade, de trabalho e de vida comunitária numa união sem violência e com respeito até que chegou a cobiça e pôs fim nesta admirável aventura humana.  Mesmo este ideal de um mundo novo não ter durado para sempre, o sangue derramado dos índios foi uma semente cultural que no mínimo nos mostra que devemos ter amor à terra. Quem tem sintonia com a cultura sabe que existe um ideal missioneiro em cada esquina e em cada pessoa deste recanto sulino. Eu sinto isto pulsando em mim.
Nas minhas andanças pelo Rio Grande do Sul afora, de tudo o que vi, conheci e aprendi, pude perceber também que existe uma grande massa de pessoas nascidas noutras plagas que gostariam de ter nascido nas Missões e aqui ostentar a honra de ser Missioneiro.
Hoje há muitas pessoas daqui das Missões dedicadas à nossa História Missioneira, mas, infelizmente, ainda há um desconhecimento para outras pessoas sobre a nossa história que é riquíssima.  Isto é algo que precisa ser visto, revisto e repensado. Mas, de forma geral, como é bom ser Missioneiro!
Portal: Escritor João Antunes poeta, historiador e compositor 
Facebook = João Carlos Oliveira Antunes
Bossoroca (55) 9999-42970 joaoantunes10@terra.com.br 
Site: Origem da Cruz Missioneira
Site: Reduções Jesuítitas – RESUMO - 1º E 2º Período
Site: Morte dos Caciques Sepé Tiaraju, Nicolau Ñanguirú e 1511 indios
Gravataí a mais longínqua Redução; 

Site: Primeira Cruz de Quatro Braços 
Site: Itacuruacir nos aproxima de Tupã ao ser perdida.
Site: Pedra Itacuru, Pedra Cupim ou Pedra Missioneira
Site: # Primeiro mate é do dono, por quê? 
Site: Inácio de Loyola - Primeiro Jesuíta

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