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Roteiro e Texto Sobre Espetáculo Som e Luz



    O Espetáculo Som e Luz, criado em 1978 pelo Governo do Estado do Rio Grande do Sul e repassado para o Município de São Miguel das Missões, é uma narrativa que conta o surgimento, o desenvolvimento e o final da experiência jesuítico-guarani. A história das Missões é contada diariamente, ao anoitecer, no Sítio Histórico São Miguel Arcanjo, declarado pela UNESCO Patrimônio da Humanidade.

    A história é narrada por duas personagens da experiência missioneira ainda presentes no local: a igreja e a terra. Contada ao longo de 48 minutos, a narrativa envolvente imerge o espectador em uma viagem pelo tempo, mostrando um pouco do cotidiano, da política, da arte, da guerra e da fé de uma sociedade que vivenciou um desenvolvimento harmonioso, baseado em relações sociais cooperativas.

    O texto e o roteiro de Henrique Grazziotin Gazzana são reproduzidos nas marcantes vozes de Fernanda Montenegro, Lima Duarte, Paulo Gracindo, Juca de Oliveira, Rolando Boldrin, Maria Fernanda e Armando Bógus, resultando em uma experiência inesquecível.

    O Espetáculo Som e Luz possuía a mesma estrutura desde sua primeira apresentação, em 12 de outubro de 1978. É apresentado diariamente e, do seu gênero, é o mais antigo em exibição no Brasil.

  • Sobre

  • Elenco - vozes:
    1 - Terra: Fernanda Montenegro.
    2 - Catedral: Maria Fernanda
    3 -   FundadorAntônio Sepp: Paulo Gracindo.
    4 -   Construtor – Giovani Primoli: Juca de Oliveira
    5 -  Escultor Giusepe Brasanelli
    6 -  Emissário 
    7 -  Jesuíta Pe Antônio Sepp: Paulo Gracindo 
    8 -  Marques de Valdelírios -  Armando Bogus *
    9 -  Gomes freire de Andrade – General                                 
    10 - José Joaquim Viana – Gov de Montevideo: Rolando Boldrin
    11 - Sepé Tiarajú – Lider guarani:  Lima Duarte

    TERRA
    Quem vem lá? Quem vem lá? Profanar minha ondulante pradaria? Estrelas, gritos de dor cristalizados pelo infinito vazio desta celeste cobertura, testemunhas dos dolorosos massacres daqueles dias em que a insegurança e o ódio arrancaram-me do dorso a melhor comunidade que em mim germinou.
    Ah, estrelas, vento irmão, afastai o novo intruso.
    RUÍNAS
    Um momento, vos pedimos, calmo leito sobre o qual repousamos a tanto tempo, fecunda terra, berço e sepultura, nós ruínas desgastadas, estaremos dentro em breve confundidas com lodo em vosso ventre. Antes, porém, atendei! Permiti que estes estranhos que voltam a passear aqui, sem a mesma graça, é claro, dos antigos Guaraní, saibam o que foi feito àquele povo tão belo. Que os estranhos aqui presentes, pelos motivos mais diversos, do mais leviano ao mais penetrante, dividam conosco a mágoa universal de ter assistido a um massacre no qual o inimigo colonialista, por cobiça, raiva e inveja moralista, matou com tiro e lança o legítimo habitante destes campos, os braços construtores desta igreja.
    Libertai, serena terra, o espírito de um povo cuja história épica encerra verdades que servem de novo. Os estranhos ora atentos, com seus olhos assustados, podem ser talvez isentos da culpa dos crimes aqui consumados. Mas já que vieram aqui, devem ouvir nos ventos a verdade que encerrais: como foram arrasados vossos filhos, nossos pais, os tranquilos Guaranis
    TERRA
    Palpita em mim o casamento ensanguentado de dois reinos da península europeia: Espanha, amante da beleza e da aventura, mas tão cruel em suas guerras e conquistas, e Portugal, dono de vasto território àquele tempo, mas pouco hábil para mantê-lo a seu contento, conceberam num tratado o triste intento de trocarem entre si as Missões e Sacramento. Ordenaram aos Guarani e Jesuítas que migrassem com o sol, para além do Rio Uruguai. E ante a recusa de meus filhos em abandonarem minhas colinas consumaram em algazarra sanguinária suas bodas assassinas.
    RUÏNAS
    Não assim! Oh, terra dolorosa de meus pais, sejamos também mais brandas com os estranhos. Não assim!, pois em nossas palavras está rugindo o tigre da vingança contra um passado de maldade. Devemos tomar cuidado, Terra, com este felino que num bote traiçoeiro pode trair a verdade.
    TERRA
    Pediste para contar-lhes, não foi isso? Para fazê-lo sentir o sofrimento que ainda tenho. 
    Devo ser branda no relato de minha própria desventura? 
    Acaso a mágoa de ter visto destruída a própria cria não deixa doido o mais plácido e cego mais consciente? 
    De que outra forma quereis que eu me torne agora ouvida? 
    RUÏNAS
    Compartilho convosco este noturno desespero, pois estamos demais ligadas a tudo que aqui foi feito, e já temos a sentença do julgamento da História. Nós, Ruínas, e vós, Terra, vimos brotar uma flor incomum e solitária na primavera humana. 
    Parimos e acalentamos a nação dos Guaranis. Sentimos o cheiro acre de sua luta cotidiana, em que homens eram irmãos prá colher e  moer o trigo. 
    Aspiramos o perfume de um milhão de pães na hora das refeições igualmente divididos. Amiga Terra, por aquelas mãos reunida e trabalhada e aconchegada de novo, em adobes empilhada, e ergueram moradias, pra manter agasalhado o fogo de suas vidas, de seus sonhos e repousos. 
    Nós fomos assim de vós refeitas e recriadas. Sobre vós corria, em estrondoso alarido, o gado numeroso, por eles naturalmente criado. Cavalgavam sobre vós, corpo a corpo em seus cavalos, com seus gritos estridentes nos dias de festa ou trabalho. E dentro de mim cantavam de tal forma melodias, que encontravam novos tons em nossa terrestre harmonia.
    Eram de terra seus corpos, sem desejarem diferentes, de água seus sonhos cantando líquidas elegias, de ar e formosura de suas vestes do dia a dia, e a vontade de viver e seus amores, como fogo eram ardentes. Sejamos, portanto, Terra amiga, apenas palco novamente. Que os estranhos nesta noite, vindos para nos ver, participem do drama antigo que os fez morrer.
    TERRA
    Começo a compreender as vossas intenções. Quereis de novo a coxilha de Santa Tecla assaltada por legiões unidas de Espanha e Portugal. O fluir mortífero daqueles dias de 1756. O golpe fatal desferido contra o povo Guarani, na batalha de Caibaté. A vitória dos bandidos... A morte do índio Sepé... 
    RUÏNAS
    É isso o que quero, e vos digo que, para melhor apresentar esse passado amortecido ao estranho que a escutar estiver nos assistindo, é melhor deixar falar os homens daquele tempo. Invocai-os que eles jazem, dentro de vós, adormecidos. Chamai-os à tona, que venham todos aqui reunidos.
    TERRA
    Deveis compreender o coração humano, pois por ele fostes construída. Quanto a mim, sou mãe e sempre primitiva matéria prima. Sei da substância, do interior do universo. Já tenho tudo dito em montanhas e planícies. Prá falar a seres vivos há que ser mestre em superfície.
    RUÍNAS
    Invocai aqueles homens!
    TERRA
    Infinita alga espiralada da História no oceano no oceano do Tempo, erosão interminável que em mim tudo converte, eu apelo a vossa volta neste momento solene. Amantes do movimento natural, homens francos de pele avermelhada, vozes sonâmbulas pela noite espalhadas, eu vos chamo. Venham também os homens que reuniram as tribos Guaranis sem corromper sua existência, os Jesuítas de variada procedência, que, convivendo com a cultura nativa, enriqueceram-na com a sua. Do meu peito ardente em chamas, saiam também os mestres da traição e da inveja. Saiam portugueses e espanhóis daquele tempo. Que de todos os que falo, ao  menos um aqui esteja.
    PADRE ANTÔNIO SEPP
    Que vento há nesta noite.
    RUÍNAS
    Seja benvindo, padre Antônio Sepp.
    TERRA
    Filho meu, Antônio Sepp, libertai vossa lembrança. As ruínas sugeriram que a palavra certa alcança, 
    contra aqueles que nos feriram, a mais rápida vingança.
    PADRE ANTÔNIO SEPP
    Belas músicas tocando... Não me apraz falar do sangue que afogou nossa alegria. Ouvi! Estais ouvindo a melodia? Quem poderia ser violento consigo mesmo ou com os outros, se dentro de si trouxesse tão sublime harmonia. Sim, eu vos falo e faço gosto, mas dos Guaranis dos meus dias. 
    A morte veio depois, quando eu já não existia. Que vos falem dela seus autores, pois eles fizeram dela seu cotidiano guia. Mas quando eles vierem, tentai compreendê-los, pois a morte é sempre grata hospedeira nos frios compartimentos de uma vida vazia.
    Deixai vossos olhos correrem pelo que agora é ruína. Vede que ainda há beleza mesmo depois da chacina. Libertai vossos olhares Da realidade do que está aqui. Vamos reconstruir os lares dos musicais Guaranis. Deixai-me conduzir os vossos olhos e enriquecer vossas visões com a ofuscante São Miguel, 
    centro de nossas Missões.
    Caminhemos pelas ruas sem o menor constrangimento. Estais ouvindo esta música? Pois cá foi feito o instrumento. Os Guaranis os fazem todos: violoncelos, violinos, violas, órgãos, flautas, que mais vos direi...?! Ah, até uma espécie de harpa que eu próprio inventei. E agora ouçam o coral dos meninos... Se eu ainda vivesse diria que eram divinos.
    Mas vamos deixá-los e seguir pela cidade. Podemos andar sob estes telhados sem apanhar sereno. Os avarandados cobrem todas as ruas, de dia nos fazem sombra e também protegem da chuva. Andemos por aqui todos, que o lugar não é pequeno.
    Ali está a escola, e os meninos aprendendo a ler e escrever, enquanto as meninas educam o bordar e o tecer. E são tão hábeis nisso tudo, progridem tanto no estudo, que em breve nos fazem alunos.
    Ah, ouçam novamente os cantores, estão afinando a voz: barítonos, baixos tenores. E os contraltos, e os sopranos. Iguais ou melhores que os germânicos, e nem são arianos.
    Olhem só, eles agora estão dançando! Mas vamos continuando...
    Ali está a padaria, e a escola de instrumentos. Mais lá  em baixo a olaria. Ao construirmos encaixamos os tijolos não usamos cimentos. Lá o moinho, aqui a oficina dos escultores. Quase pegada a ela está o atelier dos pintores.
    Ao longe está o matadouro, onde lidam os carneadores. Esse barulho nos vem do trabalho dos ferreiros. Mas, no meio desse ruído, notai que há sempre uma música. Ela está sempre conosco, no trabalho, nas festas, e em  nossas preces litúrgicas.
    A natureza musical dos Guarani é pouco propensa aos crimes de roubo ou assasinato. Quando raramente um fato assim acontece, reunimos um conselho de índios que tudo logo esclarece. O próprio governo é um conselho de índios que exerce, do qual também fazemos parte. A esse governo se obedece. As idéias políticas, com suas variantes individuais, tomam vários coloridos, e somam-se num só conjunto, em suma, não há partidos.
    O diabo deve detestar esse lugar, se eu estivesse vivo diria: aqui não existe se quer burocracia. 
    O que os torna assim tão hábeis, e lhes traz tanta harmonia, é um instinto incomparável de vida e de companhia. O trabalho já é um fim: realiza-se em si próprio, isso transforma o trabalho 
    em sempre nova poesia.
    São Miguel crescia tanto, quase a perder de vista, que decidimos fundar outra redução nas cercanias. Partimos. Junto comigo os primogênitos de quase oitocentas famílias. Depois de um ano de lutas estava pronta a cidade de São João Batista...
    CATEDRAL
    A redução de São Miguel Batista foi estabelecida em 1700. O tempo prosseguia, acrescentando prosperidade aos povos Guarani, dos quais a Companhia de Jesus se orgulhava de ser apenas pastora, fundindo sua cultura artística e  política com a habilidade dos índios que se deslumbravam com os frutos  de sua união. Mais índios vinham juntar-se às comunidades dos Sete Povos. Elas cresciam. Em 1706 fora fundada a última das sete reduções, a de Santo Ângelo Custódio, que veio unir-se às seis outras: São Nicolau, São Borja, São Lourenço, São João Batista, São Luiz Gonzaga e São Miguel, a capital.
    Em 1720, no resplendor dos Sete Povos...
    TERRA
    Catedral, desculpai-me a interrupção, mas há um cavalheiro insistente, dentro de mim inquieto e ansioso prá falar aos estranhos assistentes.
    CATEDRAL
    Pois se apresente então o cavalheiro.
    TERRA
    É o senhor Gean Battista Primoli. O arquiteto que vos edificou
    CATEDRAL
    Senhor Giovani
    GIOVANI PRIMOLI
    Sim, sim. Vamos logo com isso. É preciso que todos saibam como era esta minha obra prima, hoje quase toda destruída. Dez anos de trabalho contínuo. E sempre  junto comigo, dispostos e tão bonitos
    cem operários índios.  Ora, senhores, ouçam menos minhas palavras e olhem mais esta rainha. Suas linhas ondulantes, dramáticas ou verticais obedecem o rítmo de mística ladainha. Estão vendo as paredes? Parecem coladas por forte adesivo. Pois então agora eu digo, não há uma gota de cal ou cimento entre tijolos maciços. São de tal forma trabalhados, que a saliência de um se ajusta à depressão do vizinho. Dez anos neste trabalho, nos fazia gosto assistir à lenta explosão de pedra do nosso sacrifício. Em 1743, estava concluído o início. Passaram-se mais dois anos, de lenta ornamentação. Na torre maior, à direita, um galo de estanho dourado encimava o campanário, onde cantavam muitos sinos. Ao passo que na torre da esquerda, que seria construída, seu observatório astronômico, bisbilhotaria estrelas. O relógio da grande torre, que correto media o tempo, foi arrastado por ele, depois de muito vento. E como era bela por dentro... sobre isso, pode falar melhor o artista Giusepe Brasanelli. Hein Giusepe, venha contar aos estranhos a história de suas esculturas.
    GIUSEPE BRASANELLI
    Não, não, amigo Giovani. O que eu tinha a dizer já foi dito. Quem quiser
    saber, que aprenda a ouvir com os olhos o que disseram minhas mãos. E ouçam também a melodia  das formas talhadas pelos índios. Eu silencio. Que cantem vossos sentidos.
    CATEDRAL
    Em 1750, os embaixadores de Portugal e Espanha reuniram-se em sigilo na cidade de Madrid.
    EMISSÁRIO
    “No dia 13 de janeiro de 1750, os reinos de Espanha e Portugal executaram o seguinte tratado: a colônia de Sacramento, situada ao sul da colônia de São Pedro do Rio Grande, será entregue aos espanhóis, em troca dos Sete Povos das Missões, localizados a leste do Rio Uruguai. Os habitantes destes povos, índiios e missionários, deverão tomar apenas os seus bens móveis e semoventes, e emigrar para o outro lado do rio, na direção do ocidente.
    CATEDRAL
    O Tratado de Madrid varreu a nação dos Guaranis como um vento gelado. Os índios não acreditavam que o mesmo rei da Espanha, que sete anos antes lhes havia reconhecido o papel de servidores fiéis, e lhes entregara diplomas e condecorações, tornando-se amigo, estivesse agora manipulando suas terras
    e suas vidas sem a menos consideração pelo que haviam construído. Os Jesuítas, por sua vez, tentaram evitar a guerra pressentida. Com palavras, tentaram inutilmente abrandar a revolta dos oprimidos e atenuar a pressa dos colonialistas.
    JESUÍTA
    Senhor Marquês de Valdelírios, responsável pela execução desse tratado, devo confessar-vos, com muita humildade, meu espanto.
    MARQUÊS DE VALDELÍRIOS
    Vossa Benção, padre. E que Deus abençoe o Rei da Espanha, enquanto eu estiver ao lado dele.
    Com que então estais espantado... Com o Tratado de Madrid?...Ora... Devo crer que vossa vivência com Nosso Senhor Jesus Cristo não vos deixou tempo o bastante para vos ter educado nas artes da nossa sinuosa política...
    JESUÍTA
    Nestas artes, senhor Marquês, devo me crer atrasado, pois me escapa à compreensão as razões desse tratado. Nossas missões só tem legado à coroa espanhola riquezas, orgulho e trabalho. Os índios tem sido amigos, e mesmo fiéis vassalos, lutando como soldados nas guerras que vós, espanhóis, criais com vossas palavras. Os Sete Povos têm espantado a todos que os visitam e estudam, foram na França exaltados por Voltaire e Montesquieu. Tem sido um terreno fecundo onde florescem  mais belas as plantas da arte e da vida. E porque trocá-los, senhor, pela colônia de Sacramento, lusitana há tanto tempo e sem o menor esplendor?
    MARQUÊS DE VALDELÍRIOS
    Logo vejo que há exagero no elogio aos vossos índios. Os Jesuítas confundem ruídos e gritos, com música e poesia. Para exercer o poder, é preciso picardia. Então não sabeis que os portugueses tem feito do roubo a indústria que lhes dá mais rendimentos, contrabandeando riquezas pela colônia de Sacramento?
    JESUÍTA
    Nesse caso, senhor, conscientes do que eles fazem, não podem os espanhóis evitar a ladroagem?
    MARQUÊS DE VALDELÍRIOS
    Aqui vos falta, caro padre, a malícia necessária. Pense um pouco, mas antes,  deixai-me fazer uma observação: devo prevenir-vos do perigo que fazem certas companhias...
    JESUÍTA
    Perdão, Senhor Marquês, mais uma vez eu falho em decifrar vosso enigma. Não sei qual companhia tem assim me ameaçado.
    MARQUÊS DE VALDELÍRIOS
    A companhia poética, caro irmão Jesuíta, de um cavalheiro antigo, jovem, de origem semita.
    JESUÍTA
    Falais de Cristo...
    MARQUES DE VALDELÍRIOS
    É evidente que sim. Vós me pareceis tão ingênuo quanto ele. E vos previno: sendo assim, cuidado, irmão Jesuíta, podeis ter o mesmo fim.
    JESUÍTA
    Que espada cruel de palavras. Com vossa permissão, voltemos àquele assunto.
    MARQUES DE VALDELÍRIOS
    A bacia do Prata é o ponto final de três rios e inicial de mil conquistas. De norte a sul convém ser nossa. E...deixemos de rodeios... Se portugueses hoje fazem fortuna em Sacramento, mudando de dono a colônia mudam de cofre os proventos!
    JESUÍTA
    Vossas palavras me fazem duvidar de meu entendimento. Quereis dizer que o contrabando continuará a ser feito, desta vez por espanhóis, roubando colônias portuguesas?
    MARQUES DE VALDELÍRIOS 
    Cuidado, irmão, cuidado que há muito perigo em deixar assim tão claras verdades discretas. Certas atitudes são melhor sucedidas, quando não explicadas, principalmente em política. A visão crítica, o esclarecimento, causam à execução do poder muito aborrecimento.
    JESUÍTA
    Eu já compreendi muito bem, senhor Marquês de Valdelírios, a sutileza de vossos desígnios. Venho, no entanto, em nome da minha irmandade, pedir-vos mais algum tempo afim de proceder a mudança. São mais de trinta mil índios, apegados à sua querência há mais de 130 anos. É preciso convencê-los de que devem deslocar-se. Além do mais é preciso trabalhar a nova terra, construir as moradias, isso tudo leva tempo. O prazo determinado para que tudo isso aconteça, não chega a inteirar um ano. Pedimos, portanto, paciência, e o tempo de mais três anos.
    MARQUES DE VALDELÍRIOS
    Admito que seja assim difícil a transferência, aumentarei o dito prazo. No entanto... três anos é muito tempo. Vós sabeis mais do que eu que, pela Sagrada Escritura, o Bom Deus fez esse mundo em apenas seis dias... Sendo vós companheiro de Cristo, algumas orações apressarão a transferência. Prorrogarei o tal prazo, e vos darei mais seis dias, afim de colaborar com a Divina Providência...
    TERRA
    Os Guaranis não admitiram o Tratado de Madrid.
    CATEDRAL
    Portugal e Espanha enviaram para combater os rebeldes, demarcadores de terra armados por um exército com soldados dos dois países.
    TERRA
    Em 1754 chegavam eles à coxilha de Santa Tecla. No comando dos portugueses estava o general Gomes Freire de Andrade. Os espanhóis eram liderados por Adonaegui e  José Joaquim Viana, governador de Montevidéu.
    JOSÉ JOAQUIM VIANA
    São belas estas paragens... Não me agrada saber que vamos trocá-las pela Colônia de Sacramento.
    GOMES FREIRE DE ANDRADE
    Bem, senhor Joaquim Viana, devo considerar sua falta de motivação responsável pela nossa ineficiência na luta. Com canhões e artilharia temos conseguido bem menos do que esse bando de selvagens armados de lanças e flechas.
    JOSÉ JOAQUIM VIANA
    O senhor está subestimando o poder de nosso adversário. Esquece que nossos soldados lutam mais pelo salário, ao passo que os Guaranis, defendem seus territórios. Conhecem bem o terreno, sabem onde atocaiar-se, preparam boas armadilhas. Além de tudo são mestres na técnica das guerrilhas.
    GOMES FREIRE DE ANDRADE
    São bárbaros, no pior sentido. Queimam os seus povoados quando os crêem perdidos. Lutam como feras feridas, cavalgando sempre aos berros, sem pudor, quase despidos...
    JOSÉ JOAQUIM VIANA
    Ora, general Gomes Freire de Andrade, estamos em plena guerra, ensopados de sangue até os olhos, e o senhor fala em pudor com tanta dignidade!
    GOMES FREIRE DE ANDRADE
    Pois preservo minhas virtudes, senhor Joaquim Viana, tanto nas batalhas de campo, quanto naquelas de cama...
    JOSÉ JOAQUIM VIANA
    Bravo, Freire de Andrade... já basta tanto cinismo... Sejamos ao menos honestos dentro da nossa maldade.
    GOMES FREIRE DE ANDRADE
    Se quer chamar assim... Não esqueça, todavia, a nossa cumplicidade.
    CATEDRAL
    A luta prosseguia, favorecendo muitas vezes os Guaranis, que estavam solidamente unidos sob a chefia dos índios Sepé Tiarajú, e Nicolau Nhanguiru.
    SEPÉ TIARAJÚ
    Companheiros! Temos freado o inimigo! É preciso continuar lutando sempre, unidos, defendendo nossa querência, e acima de tudo a nossa vida independente! O pelotão de lanças está pronto?
    ÍNDIOS
    Impaciente e firme para qualquer batalha!
    SEPÉ TIARAJÚ
    Então, avancemos  nessa trilha!
    Viva a Nação dos Guaranis!
    ÍNDIOS 
    Viva! E viva Sepé Tiarajú!
    SEPÉ TIARAJÚ
    Há um bem maior a ser louvado! Algo que vencerá mesmo que percamos a batalha: Terra que circula em nossos corpos, é teu o nosso trabalho. Ventos claros, rios prateados, independência natural, esposa comum, Liberdade, é por ti a nossa luta, e toda  nossa lealdade!
    ÍNDIOS
    Em nome desta Terra, fora com a tirania dos colonizadores!
    TODOS
    Fora! Fora! Fora! Fora! Fora!
    SEPÉ TIARAJÚ
    Abaixo a opressão! Viva a Liberdade!
    ÍNDIO
    Companheiro Sepé vem de lá, novamente, um soldado portugues, com uma bandeira branca.
    EMISSÁRIO
    Venho em nome do General Gomes Freire de Andrade. Ele quer conceder-lhe uma conversa amigável.
    SEPÉ TIARAJÚ
    Gostam muito de palavras, estes nossos invasores. Se delas fizessem bom uso não seriam traidores.
    EMISSÁRIO
    Meu General lhe garante toda a segurança possível. E lhes entrega dez soldados, como reféns até sua volta.
    SEPÉ TIARAJÚ
    Já sei, já sei. É a vigésima vez que me vens esta semana. Desta vez aceito, vamos ao teu General.
    GOMES FREIRE DE ANDRADE
    Ora, ora, então é esse o grande chefe. Tão jovem e tão despojado de defesa. Agora não usa sequer camisa o pobre bárbaro.
    SEPÉ TIARAJÚ
    Me chamaste aqui, general de mercenários. Invadiram nossas terras. Assassinaram nossos irmãos.
    És um intruso, mais do que eu, tu és um bárbaro.
    GOMES FREIRE DE ANDRADE
    Indígena insolente... Mas...mesmo assim... Sepé Tiarajú, eu te perdôo... Anda, apeia do teu cavalo. Podes beijar minha mão fidalga. Agradece por minha piedade em nome do Reino de Portugal, verdadeiro dono destas terras.
    SEPÉ TIARAJÚ
    Esta Terra já tem dono! Deus e São Miguel a entregaram aos animais que a tem povoado. Portanto, General assalariado, ajoelha-te tu e beija os cascos do meu cavalo.
    TERRA
    As batalhas continuavam, a cada dia mais flores de sangue em meus campos brotavam.
    RUÍNAS
    No dia sete de fevereiro de 1756, um esquadrão hispano lusitano chefiado pelo governador de Montevidéu, José Joaquim Viana, defrontou-se com Sepé Tiarajú e alguns outros índios.
    JOSÉ JOAQUIM VIANA
    Soldados! Lá  está o índio Sepé. Contra ele. Ataquem! Morto o líder, o adversário esmorece.
    SEPÉ TIARAJÚ
    Sempre em frente companheiros! Lutemos em nome desta terra, e da nossa liberdade! Fora com os invasores!
    RUÍNAS
    Um soldado português atingiu Sepé, cravando-lhe uma lança nas costas.
    SEPÉ TIARAJÚ
    Ah...Deixem-me, eu me recupero. Nicolau Nhanguiru assume o comando...podem ir. Vão, deixem-me...
    JOAQUIM VIANA
    Sepé! Sepé Tiarajú, ainda está vivo?
    SEPÉ TIARAJÚ
    Nunca...Sempre...
    JOSÉ JOAQUIM VIANA
    Está delirando.
    SEPÉ TIARAJÚ
    Fora daqui...destruidores assassinos...
    JOSÉ JOAQUIM VIANA
    Sepé Tiarajú! Sou o seu inimigo José Joaquim Viana. Antes de morrer, ouça...
    SEPÉ TIARAJÚ
    Morrer...Impossível...Quero viver...
    JOSÉ JOAQUIM VIANA
    Ouça-me! Preciso falar-lhe. Eu me senti honrado por ter alguém tão bravo como inimigo. Preciso matá-lo agora.
    SEPÉ TIARAJÚ
    Fora daqui, maldade cínica... assassinos...eu quero viver...
    JOSÉ JOAQUIM VIANA
    Você não pode viver, Sepé.  Não posso deixá-lo vivo. A lança que tem cravada é portuguesa. Aqui vai o tiro da Espanha.
    TERRA
    Tres dias depois travou-se a mais cruel batalha daquela guerra. Mil e duzentos Guaranis foram massacrados na batalha de Caiboaté. Nas lutas morreu Nicolau Nhanguiru, líder como fora Sepé.
    CATEDRAL
    Iniciava-se assim a destruição da Nação dos Guaranis.
    TERRA
    Basta! Basta! Não é preciso mais palavras. Os estranhos que vos olhem, catedral de vento. É eloquente o bastante a imagem de vossa ruína.
    RUÍNAS
    As estrelas  continuam no céu, quer se vejam ou não. Assim continuará a luta do cacique de São Miguel e de seus irmãos assassinados. Enquanto sobreviver no coração do homem o desejo infinito de ser livre, de lutar contra a opressão, há de se ouvir no dia a dia o grito do índio Sepé.
    SEPÉ TIARAJÚ
    Terra que circula em nossos corpos, é teu o nosso trabalho. Ventos claros, rios prateados, independência natural, esposa comum, liberdade, é por ti a nossa luta, e toda nossa lealdade.  

    Site: Espetáculo de Som e Luz e As Ruínas  o que precisa saber para visita-lo. 
    Site: As Ruínas de São Miguel Arcanjo Sítio Arqueológico o que precisa saber para visita-lo. 
    Site: Roteiro e Texto Sobre Espetáculo Som e Luz  roteiro e todas as informações culturais e diálogos. 
    Vídeo: Espetáculo de Som e Luz e as Ruínas 
    Vídeo: Espetáculo Som e Luz 

    Imagem: Ruínas Jesuíticas de São Miguel das Missões 
    Site: Pórtico de São Miguel das Missões  
    Ruínas de São Nicolau Sítio Arqueológico 1ª Redução Jesuítas
    Ruinas de São Lourenço Sítio Arqueológico 
    Ruinas São João Batista Sítio Arqueológico - 6ª Redução Jesuítas 

Informações

Roteiro e Texto Sobre Espetáculo Som e Luz
São Miguel das Missões, RS
Fone IPHAN (55) 3381-1399 Rua São Nicolau - Junto ao Sítio Arqueológico São Miguel Arcanjo.
Telefone: (55) 3381-1294

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